COMEDORES DE ANIMAIS

O tédio, o ego, o uísque e as donas de gatas.

Parte I – O Tédio

Meu primeiro amigo foi um cachorro. Chamava-se Torão, aludindo a um toro grande, era um Fila, grande, corpulento, bem velho. O focinho preto do Fila era tomado de pelos brancos. Ele era cheio de cicatrizes das muitas brigas com outros cachorros. Eu, um garoto de 3 anos de idade, cheio de energia, brincava com ele até a exaustão, ele se atirava de lado cansado. Torão era um aposentado, a profissão dele era capturar e, eventualmente, até matar outros cachorros. Meu pai era veterinário do governo e pesquisava sobre doenças dos animais, vacinas para doenças transmissíveis, como a raiva. Os funcionários de sua equipe não queriam eles mesmos capturar cachorros com raiva, o que era uma das obrigações dessa equipe de servidores públicos, logo deram um jeito de profissionalizar sua atividade. Torão, devidamente vacinado contra a raiva, imune, poderia morder, arrastar para onde quisesse os tais cães e até despedaçar os cães com raiva, que metiam medo em homens adultos. Foi treinado para isso. Capturar e imobilizar outros cães. Era um tipo de Exterminador do Futuro para cães. Mas quando conheci o velho Torão já estava aposentado, os funcionários não quiseram sacrificar o colega de trabalho e então o único que ele tinha que aguentar era o garoto que ficava a tarde toda rolando com ele na areia. Tinha virado uma babá. Fim de carreira inusitado para um assassino profissional. Um dia não encontrei Torão. Meu pai me explicou que ele tinha ido morar num lugar mais tranquilo, por que estava muito velhinho. Bem cedo em minha vida já tinha entendido o tédio que acomete aqueles que perdem uma parceria e amizade de verdade.

PARTE II – O ego e o uísque

Por anos moramos nesta casa afastada da capital, próxima ao Instituto de Pesquisas Veterinárias, numa região chamada Sans Soucy. Os veterinários chamavam o local de Conde, por conta do Arroio do Conde. No passado a região tinha sido um balneário, 20 quilômetros de Porto Alegre, no outro lado do Guaíba. Lindos sobrados de alvenaria eram a residência dos veterinários num sítio com amplas áreas, tinha espaço pra jogar bola, fazer grandes churrascos e rodas de samba. Muita gente visitava e até se hospedava na casa dos meus pais. Vários eram veterinários de outros países. Eu já tinha mais de oito anos de idade e queria praticar inglês, adorava falar em inglês, me sentia o máximo, tão jovem e já bilíngue. Ainda mais cercado de adultos que se admiravam com a cena do menino brasileiro que falava inglês. O exibicionismo já era latente. Numa dessas churrascadas, um gathering, perguntei para um vet escocês, de bigodes pontudos, torcidos, já embranquecidos pela idade, o que seria a veterinária, seria uma ciência? Com um copinho de uísque na mão me fuzilou com seus olhos azuis, a resposta provocativa era uma flecha com dinamite na ponta, pronta para explodir o pirralho na fase das perguntas, uma resposta do manual. – Não é uma única ciência, são várias ciências juntas que ajudam a que possamos criar os animais que alimentam os humanos, para que se desenvolvam bem, com saúde e para que não transmitam doenças quando os comemos. A resposta era boa, mas eu que vivia cercado de cachorros e cadelas questionei a resposta tão exata e rápida. – Os veterinários cuidam dos cachorros e nós não os comemos, não são alimento para os humanos! A réplica de vet astuto já me esperava na ponta da língua do velho escocês que calmamente respondeu “alimentam sim”. Retruquei chocado. – Não, não alimentam! Não comemos cachorros! Ele completou tomando o restinho daquele copo de uísque. – Os cachorros alimentam o ego de seus donos. Todos riram de mim, uma gargalhada que ecoou. Perdi o debate. Dei-me por vencido e fui à enciclopédia no gabinete de papai pesquisar mais sobre o tal ego. Acho que nesse momento me afastei por completo da ideia de seguir a carreira de meu pai, inebriado pela adrenalina do exibicionismo queria saber mesmo sobre as implicações do ego e das relações dele com o uísque, o que parecia deixar aquele velho tão bom nas respostas.  

PARTE III – As donas das gatas

Curiosamente hoje não tenho cachorros. Tenho duas gatas. Branca e Diva. Ambas são heranças de namoradas que acabaram deixando ou não conseguindo levar as gatas embora do apê onde moro. O fato básico, as gatas se afeiçoam muito mais a rotina chata e disciplina de quem escreve do que as suas auto declaradas mães da espécie homo sapiens, mais afeitas à vida sem rotinas. Aliás, mães bem desnaturadas. Adotar a primeira gata, a Diva, era uma condição sine qua non para que a minha namorada frequentasse e dormisse no meu apê, que segunda ela, era um “lugar sem vida”. Eu não era contabilizado no rol dos seres vivos. Ela ainda me avisou sobre “posse responsável” alertando. – Adotar uma gatinha é muita responsabilidade Luciano, é um compromisso de pelo menos 20 anos. Não se pode adotar e depois jogar fora! Explicava atônita. Acho que já imaginava me jogar fora, a preocupação maior era com a gatinha. Eu já era o suficiente sem vida para me virar sozinho. Profeticamente a namorada se foi e a gata ficou. Nunca mais se viram. De certo problemas com a tal posse responsável de seres vivos. Hoje a Diva já beira os 15 anos e está muito satisfeita. A segunda gata, a Branca, também se afeiçoou a rotina, a receber ração todos os dias e a ter sua areia trocada regularmente. Coisa que já me coloca na lista dos homens chatos, previsíveis, solitários que cultuam rotinas domésticas. Sua dona original bateu na minha porta para “resgatar a gata” logo na sequência a vizinhança se deleitou com uma daquelas cenas cheias de gritos e troca de ofensas. Veio acompanhada de outras mulheres, suas amigas, para protegê-la do ser “masculino, lascivo, machista, que não aceita nem beijar outros homens por ser conservador e homofóbico, um bolsonarista típico”, só faltou a Patrulha Maria da Penha. Acho que uma delas era candidata a vereadora de um desses partidos da esquerda roxa, fazia discursos. Não ofereci resistência. Ao tentarem levar a gata a bichana simplesmente pulou dos braços da dona e se escondeu dentro do apê. Impossível. Não iria de jeito nenhum. Esgueirava-se, fugia das patrulheiras como se fossem a face da morte. As gurias tentavam, mas Branca parecia ensaboada. Não ficava nas mãos de nenhuma delas. Mulheres adultas, vencidas pela convicção nada política de uma gata com pouco mais de 2 quilos. No início encarei como uma vitória. Como um escárnio aquela que me largava em meio a uma cena horrenda de bate boca e proselitismo político pueril. Depois entendi que a opção da felina era racional, ela não iria voltar para um lugar onde a qualidade de vida era nada prioritária, habitada por pessoas que passavam o dia sonhando com o próximo cigarro de cannabis e que se esqueciam da gata como sintoma daquela permanente defumação sagrada. Só lembraram-se da gatinha quando isso virou um fenômeno de territorialidade política, um momento de afirmação do girl power. As felinas, ao contrário das fêmeas homo sapiens, gostam de rotina, de ração na mesma hora, de limpeza doméstica, de cama feita. A batucada dos dedos no teclado do PC e os clássicos da música ouvidos baixinho, isto acalma as gatinhas. Dormem sem pudor enquanto trabalho. Adoram o tédio.  Acabei descobrindo companhias tranquilas fora da espécie homo sapiens. Hoje sou atraído pela personalidade felina. Talvez por isso insisto em tentar a companhia de uma namorada com características felinas.

Sobre Luciano Medina Martins

Journalist, blogger, activist against the abuses of states that violate citizens' rights. I don't write about one only topic, I like to interact with many different issues. No fake news here.
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4 respostas a COMEDORES DE ANIMAIS

  1. David Pokorski diz:

    Isso sim é uso qualitativo da linguagem escrita. Ao invés de opiniões e palpites,… a realidade do passado, mesmo que não seja exato, afinal de que adianta um passado exato num futuro inexato? Bom demais, demais. Um realismo por demais fantástico, para mim fã de Jorge Borges, este é um texto nobre. Excelente.

  2. Marco diz:

    Show de texto! Aguçou minha curiosidade, se é autobiográfico… 😅

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