Não perde tua chave de novo!

O tio da van a deixa às 12h32 em frente a portaria do prédio. A menina de 12 anos, que já “está grandinha é uma mocinha” na fala da mãe, abre a porta do apartamento no 8 andar, com vista para o lago, coloca água no cup of noodles que ela mais adora, o de sabor frango e microondas. Passou a manhã toda a base de um pacote de bolachas recheadas de chocolate e morango, depois dos primeiros três períodos de 45 minutos vem o intervalo, ninguém mais fala recreio, “isso é coisa de criancinha”.

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O problema não é a bolachinha recheada.

No intervalo, em uma cena que lembra a loucura de uma Black Friday, os alunos se acotovelam num ritual de competição e gritaria para ver quem compra primeiro o cachorro quente ou pão de queijo. As vezes um hot dog, as vezes o burguer, mas para não enjoar alterna com o pão de queijo. O iogurte e a maçã que a mãe manda nem é tocado. “Nunca vi minha mãe comer isso, por que eu tenho que comer?” Contam os dias para o fim de semana quando então a mãe pede a super mega pizza família, com 6 sabores. “Adoro, fico o fim de semana todo fatiando aos poucos a pizza, por que é muito para só nós duas”. Nos fins de semana que passa com o pai não gosta tanto, “ele faz churrasco, mas eu não sou muito da carne, ai passo mais a base de sorvete.”

No RS os legisladores, sem fundamento em nenhuma pesquisa de comportamento dos jovens focaram no problema nutricional. Os gaúchos têm uma lei que pretende proibir refrigerantes e doces das cantinas das escolas. Nutricionistas das escolas mais atentas se dedicam a elaborar “cardápios saudáveis” e os diretores aguardam a regulamentação da lei para então exigir refeições saudáveis dos ecônomos de suas cantinas escolares.

Pôr as crianças a marchar não vai mudar esses fatos. Mais comida, mais responsabilidade de educadores para ao menos alimentarem direito os alunos e mais afetividade de pais, que devem conversar com seus filhos. Seria um belo começo de discussão sobre a educação no Brasil.

Será que o problema é só nutrição?

O fenômeno chamado lachtkey child, a “criança com a chave da porta”, foi cunhada em 1942 em um programa de debates na rádio do Canada, crianças ficavam sem acompanhamento de mãe, que foi trabalhar nas fábricas, e sem pai que se alistou e foi para a guerra. No início do novo milênio a geração X foi marcada mundialmente pela revolução dos relacionamentos menos duradouros e mais pautados pelas necessidades profissionais. Menor atenção a criança, em especial quando deixa de ser um nenê e entra para o ensino fundamental, é uma das maiores tendências de mudança nas famílias desde a segunda guerra mundial e se aprofunda a cada dia, a cada ciclo de “libertação” comportamental dos adultos. Movidos pelo sentimento de culpa ou paranoia de cidades violentas deixam na geladeira bilhetes em letras grandes com “não perde tua chave de novo”, alguns imbuídos de senso prático amarram a chave ao pescoço da criança.

O fenômeno atinge crianças de todas as classes, mais especialmente as de classe média e média alta, onde lares com menos filhos, menos presença de pais e vizinhos transforma os pequenos em órfãos diurnos, em alguns casos noturnos também. As escolas privadas em sua maioria não tem como parte do “serviço” a alimentação dos alunos. A justificativa é de que isto tornaria as mensalidades muito caras, pouco competitivas e seria dificílimo de administrar. As aulas começam antes do carnaval para muitas crianças e vemos que fome, falta de atenção dos pais, seguida de nutrição muito questionável, não é o foco da preocupação das famílias, estão “apavoradas” com os custos dos materiais escolares.

O uso de shortinho, o bullying, os discursos políticos em salas de aula, os meninos de azul e meninas de rosa, dominam o debate sobre educação. Escolas e famílias que não alimentam adequadamente alunos em fase de crescimento, que não conseguem ensinar alunos a fazerem opções alimentares saudáveis, como vão ensinar esses alunos a pensar, a fazer contas e interpretar textos?

Luciano Medina Martins | jornalista

 

Sobre Luciano Medina Martins

Journalist, blogger, activist against the abuses of states that violate citizens' rights. I don't write about one only topic, I like to interact with many different issues. No fake news here.
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