COMEDORES DE ANIMAIS

O tédio, o ego, o uísque e as donas de gatas.

Parte I – O Tédio

Meu primeiro amigo foi um cachorro. Chamava-se Torão, aludindo a um toro grande, era um Fila, grande, corpulento, bem velho. O focinho preto do Fila era tomado de pelos brancos. Ele era cheio de cicatrizes das muitas brigas com outros cachorros. Eu, um garoto de 3 anos de idade, cheio de energia, brincava com ele até a exaustão, ele se atirava de lado cansado. Torão era um aposentado, a profissão dele era capturar e, eventualmente, até matar outros cachorros. Meu pai era veterinário do governo e pesquisava sobre doenças dos animais, vacinas para doenças transmissíveis, como a raiva. Os funcionários de sua equipe não queriam eles mesmos capturar cachorros com raiva, o que era uma das obrigações dessa equipe de servidores públicos, logo deram um jeito de profissionalizar sua atividade. Torão, devidamente vacinado contra a raiva, imune, poderia morder, arrastar para onde quisesse os tais cães e até despedaçar os cães com raiva, que metiam medo em homens adultos. Foi treinado para isso. Capturar e imobilizar outros cães. Era um tipo de Exterminador do Futuro para cães. Mas quando conheci o velho Torão já estava aposentado, os funcionários não quiseram sacrificar o colega de trabalho e então o único que ele tinha que aguentar era o garoto que ficava a tarde toda rolando com ele na areia. Tinha virado uma babá. Fim de carreira inusitado para um assassino profissional. Um dia não encontrei Torão. Meu pai me explicou que ele tinha ido morar num lugar mais tranquilo, por que estava muito velhinho. Bem cedo em minha vida já tinha entendido o tédio que acomete aqueles que perdem uma parceria e amizade de verdade.

PARTE II – O ego e o uísque

Por anos moramos nesta casa afastada da capital, próxima ao Instituto de Pesquisas Veterinárias, numa região chamada Sans Soucy. Os veterinários chamavam o local de Conde, por conta do Arroio do Conde. No passado a região tinha sido um balneário, 20 quilômetros de Porto Alegre, no outro lado do Guaíba. Lindos sobrados de alvenaria eram a residência dos veterinários num sítio com amplas áreas, tinha espaço pra jogar bola, fazer grandes churrascos e rodas de samba. Muita gente visitava e até se hospedava na casa dos meus pais. Vários eram veterinários de outros países. Eu já tinha mais de oito anos de idade e queria praticar inglês, adorava falar em inglês, me sentia o máximo, tão jovem e já bilíngue. Ainda mais cercado de adultos que se admiravam com a cena do menino brasileiro que falava inglês. O exibicionismo já era latente. Numa dessas churrascadas, um gathering, perguntei para um vet escocês, de bigodes pontudos, torcidos, já embranquecidos pela idade, o que seria a veterinária, seria uma ciência? Com um copinho de uísque na mão me fuzilou com seus olhos azuis, a resposta provocativa era uma flecha com dinamite na ponta, pronta para explodir o pirralho na fase das perguntas, uma resposta do manual. – Não é uma única ciência, são várias ciências juntas que ajudam a que possamos criar os animais que alimentam os humanos, para que se desenvolvam bem, com saúde e para que não transmitam doenças quando os comemos. A resposta era boa, mas eu que vivia cercado de cachorros e cadelas questionei a resposta tão exata e rápida. – Os veterinários cuidam dos cachorros e nós não os comemos, não são alimento para os humanos! A réplica de vet astuto já me esperava na ponta da língua do velho escocês que calmamente respondeu “alimentam sim”. Retruquei chocado. – Não, não alimentam! Não comemos cachorros! Ele completou tomando o restinho daquele copo de uísque. – Os cachorros alimentam o ego de seus donos. Todos riram de mim, uma gargalhada que ecoou. Perdi o debate. Dei-me por vencido e fui à enciclopédia no gabinete de papai pesquisar mais sobre o tal ego. Acho que nesse momento me afastei por completo da ideia de seguir a carreira de meu pai, inebriado pela adrenalina do exibicionismo queria saber mesmo sobre as implicações do ego e das relações dele com o uísque, o que parecia deixar aquele velho tão bom nas respostas.  

PARTE III – As donas das gatas

Curiosamente hoje não tenho cachorros. Tenho duas gatas. Branca e Diva. Ambas são heranças de namoradas que acabaram deixando ou não conseguindo levar as gatas embora do apê onde moro. O fato básico, as gatas se afeiçoam muito mais a rotina chata e disciplina de quem escreve do que as suas auto declaradas mães da espécie homo sapiens, mais afeitas à vida sem rotinas. Aliás, mães bem desnaturadas. Adotar a primeira gata, a Diva, era uma condição sine qua non para que a minha namorada frequentasse e dormisse no meu apê, que segunda ela, era um “lugar sem vida”. Eu não era contabilizado no rol dos seres vivos. Ela ainda me avisou sobre “posse responsável” alertando. – Adotar uma gatinha é muita responsabilidade Luciano, é um compromisso de pelo menos 20 anos. Não se pode adotar e depois jogar fora! Explicava atônita. Acho que já imaginava me jogar fora, a preocupação maior era com a gatinha. Eu já era o suficiente sem vida para me virar sozinho. Profeticamente a namorada se foi e a gata ficou. Nunca mais se viram. De certo problemas com a tal posse responsável de seres vivos. Hoje a Diva já beira os 15 anos e está muito satisfeita. A segunda gata, a Branca, também se afeiçoou a rotina, a receber ração todos os dias e a ter sua areia trocada regularmente. Coisa que já me coloca na lista dos homens chatos, previsíveis, solitários que cultuam rotinas domésticas. Sua dona original bateu na minha porta para “resgatar a gata” logo na sequência a vizinhança se deleitou com uma daquelas cenas cheias de gritos e troca de ofensas. Veio acompanhada de outras mulheres, suas amigas, para protegê-la do ser “masculino, lascivo, machista, que não aceita nem beijar outros homens por ser conservador e homofóbico, um bolsonarista típico”, só faltou a Patrulha Maria da Penha. Acho que uma delas era candidata a vereadora de um desses partidos da esquerda roxa, fazia discursos. Não ofereci resistência. Ao tentarem levar a gata a bichana simplesmente pulou dos braços da dona e se escondeu dentro do apê. Impossível. Não iria de jeito nenhum. Esgueirava-se, fugia das patrulheiras como se fossem a face da morte. As gurias tentavam, mas Branca parecia ensaboada. Não ficava nas mãos de nenhuma delas. Mulheres adultas, vencidas pela convicção nada política de uma gata com pouco mais de 2 quilos. No início encarei como uma vitória. Como um escárnio aquela que me largava em meio a uma cena horrenda de bate boca e proselitismo político pueril. Depois entendi que a opção da felina era racional, ela não iria voltar para um lugar onde a qualidade de vida era nada prioritária, habitada por pessoas que passavam o dia sonhando com o próximo cigarro de cannabis e que se esqueciam da gata como sintoma daquela permanente defumação sagrada. Só lembraram-se da gatinha quando isso virou um fenômeno de territorialidade política, um momento de afirmação do girl power. As felinas, ao contrário das fêmeas homo sapiens, gostam de rotina, de ração na mesma hora, de limpeza doméstica, de cama feita. A batucada dos dedos no teclado do PC e os clássicos da música ouvidos baixinho, isto acalma as gatinhas. Dormem sem pudor enquanto trabalho. Adoram o tédio.  Acabei descobrindo companhias tranquilas fora da espécie homo sapiens. Hoje sou atraído pela personalidade felina. Talvez por isso insisto em tentar a companhia de uma namorada com características felinas.

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Cachorro quente ou hot dog?

Estava numa boate de Sampa, era 2001, novo milênio, tudo queria parecer futurista, essa boate chamava-se Disco, os mais afetados pronunciavam diz-cou, como se fala em inglês, e qualquer um que se considerava descolado e tivesse 500 reais para torrar em doses de bebida 10 vezes o valor normal, estava lá. Me convidaram, nome em lista na portaria, bebi  as custas de patrocinadores. Fiquei sentado a uma mesa enfeitadíssima de garrafas de Johnnie Walker, o que atraía muita gente bonita. Era impossível conversar, a música em altos volumes impedia qualquer linguagem além da corporal. Nunca me dei bem nestas festas onde as pessoas se beijam sem nem perguntarem seus nomes. Nada contra, beijar anônimos deve ser bom mesmo, tenho essa mania de conversar, de acreditar que a conversa é um ato civilizatório. Fiquei ali bebericando até que tive fome.

Em São Paulo é fácil engordar, dezenas de milhares de lugares com comida muito boa, tudo é bom, até o cachorro quente de carrocinha é demais. Tinha um na frente da Disco, quando a barriga falou mais alto imediatamente acendeu-se uma luz na minha memória fotográfica que me conduziu até uma destas carrocinhas. Era involuntário. Não acredito no poder de mandingas, vodoo e destas coisas de magia, mas para mim estes cachorros quentes eram encantados. O porteiro da boate disse que eu, uma vez saindo, não poderia mais voltar. Nada me afastaria daquela marcha em direção a carrocinha com o Hot Dog escrito em tinta vermelha sobre o inox reluzente. Era uma imagem hipnótica. Cheguei até ela, o atendente da carrocinha era argentino. Logo comecei a falar em espanhol, em 2 minutos de espanhol já estava conversando em inglês com o portenho. Ele falava com sotaque argentino carregado, eu não. Minha acentuação perfeita, padrões tonais treinadíssimos, confundiria até um agente do FBI sobre minha origem, se da Pensilvânia ou de Nova Jersey.

Nisto parou um carrão preto ao lado da carrocinha, desceram duas garotas lindas, uma mais clara de olhos verdes, italiana, a outra mais oriente médio, de olhos castanhos misteriosos, típicas paulistanas. Perfeitas damas, jovens, produzidas, de saltos altos e roupas indefectíveis, cabelos com alisamento japonês de 2 mil dólares. Pareciam modelos saídas de um anúncio de revista de moda. Eu continuei a conversar animado com o hermano sobre gastronomia, fórmulas do cachorro quente, tentando entender o que tem em São Paulo que faz o cachorro quente tão melhor do que o hot dog de New York, se o purê de batatas e o molho seriam o segredo. Fingi que nem tinha notado a presença das duas garotas no auge de sua beleza e imponência. Menos de 3 minutos e as lindinhas estavam conversando em inglês comigo, sorridentes, pediram educadamente para entrar na conversa, se esforçavam para falar em inglês intermediário, com muitas lacunas de vocabulário, ainda assim bem acima da média no Brasil.

Conversávamos animados sobre cachorro quente, elas também queriam saborear aquela iguaria da madrugada, mas iriam levar os lanches embora, já estavam me convidando para um after no flat delas na Vila Madalena, queriam saber o que eu gostava de beber. Tudo as mil maravilhas, finalmente tinha me dado bem naquela cidade onde os círculos de relacionamento são complicados. Estava feliz mesmo. Com um lindo cachorro quente nas mãos e me dando bem com duas beldades que evanesciam perfume francês. Neste momento saiu de dentro da Disco o meu amigo, que caminhou em passos largos até a carrocinha e gritou com os braços abertos: “Medinão, você está aqui!”. Foi como jogar um balde de água gelada sobre as duas garotas que falaram em côro, numa exclamação misto de nojo e decepção: – Você é brasileiro? Respondi num sim baixinho e culposo. Elas começaram a me xingar com toda vontade. “Seu idiota, você é um imbecil, nos enganou que era um gringo, vamos levar o seu amigo pro flat, mas você vai ficar aqui, seu trouxa, abobado, metido a besta!” A lista de adjetivos horrorosos não parava de ser declamado pelas duas. Eu ainda tentei argumentar que elas não tinham perguntado de onde eu era, não tinham perguntado meu nome, que eu estava conversando com o argentino e elas entraram na conversa. Nada do que dissesse iria contornar a decepção de eu não ser um estrangeiro e a sensação delas de terem sido iludidas. O humor das duas foi da gentileza alegre para o agressivo compulsivo como se tivessem tomado a poção do Dr. Jekyll e virado duas criaturas monstruosas vociferando ameaças mortais. Meu amigo sem entender muito do que tinha acontecido, ria de nervoso, tentou argumentar que eu era “gente boa”, que tinha morado muito tempo fora do Brasil. De nada adiantou. Logo os xingamentos das garotas já tinham atraído mais gente, olhares de reprovação, braços cruzados, testas franzidas, já surgiu um valentão de punhos cerrados querendo me soquear, vieram os seguranças da boate conferir a confusão. Muito rápido meu amigo me pegou forte pelo braço, o erguendo como seu eu fosse um marginal bêbado sendo inconveniente, me explicando em voz de comando que eu não poderia fazer uma grosseria destas, enganar as pessoas, fazer de bobas aquelas jovens mulheres. Me arrastou para fora da cena em segundos. Depois explicou que fez aquilo para me salvar de um linchamento que já estava se armando.

Sempre acreditei no diálogo como a melhor forma de superar diferenças, produzir conhecimento, encontrar soluções e até o amor de sua vida. Mesmo assim o diálogo pra funcionar tem que ser sempre de igual para igual. Nesta noite aprendi ainda que se uma mulher sentir-se ludibriada isto é fatal para a relação ou tentativa de relação, ou cantada, ou o que for. Não ludibriei intencionalmente, mas não faz muita diferença se foi intencional ou se aproveitei uma circunstância. Não ludibriar é muito mais elegante, faz bem para o coração e você pode se livrar de gente chata e perigosa em menos tempo.  Como parte desta reflexão naquela noite voltei pra casa com o estômago embrulhado e tive um pesadelo horrível, destes que acometem a gente quando comemos coisas pesadas e gordurosas antes de dormir.

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#DICA DE LEITURA NA QUARENTENA

Decamerão de Bocaccio
100 contos relatados em noites de fuga do tédio por um grupo de sete moças e três rapazes, que se abrigam em uma vila isolada de Florença na tentativa  de  se afastarem dos riscos da cidade tomada pela peste negra, pelo pânico e  pelo terror de uma epidemia que matou cerca de um terço da população que habitava o continente europeu em meados do século XIV.

Bocaccio provavelmente iniciou o Decamerão após a epidemia de 1348 e o concluiu em 1353. Os vários contos de amor em Decamerão vão do erótico ao trágico; contos de sagacidade, piadas e lições de vida. Além do seu valor literário e ampla influência, este maravilhoso livro retrata um mundo em crise assolado por dúvidas e medos, mas que se renova pelo olhar satírico sobre o passado e pela afirmação libertária, e muitas vezes libertina, de novas formas de convívio social. Um documento da vida de uma época distante, que se torna radicalmente atual. Escrito para ser lido em voz alta pode ser uma alternativa interessante para fazer 40 dias passarem num folear. O novo pode estar no passado. Contar histórias picantes e engraçadas para passar o tempo, enquanto se espera que a peste desapareça. Atraente.

Originalmenre escrito na língua florentina, é considerado uma obra-prima da prosa clássica italiana precoce. Diversão garantida para quem quer curtir um estilo de texto enriquecedor em muitos sentidos. Facilmente encontrado em sebos a preços módicos, também em edições novas.

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Um Conto de Decamerão, John William Waterhouse, 1916, tinta a óleo, tela, 101 cm x 159 cm, Lady Lever Art Gallery.

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Correio do Povo, pág.2 31/Jan/2020

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O Bode e a Galinha

A melhor metáfora para a MP 867 que tramita no Congresso com a intenção de mudar o Código Florestal Brasileiro é a dos avarentos que mataram a galinha dos ovos de ouro para assim encontrarem dentro da galinha todos os ovos de ouro, terminaram com nada além de uma galinha morta. O verde da bandeira do Brasil é a marca registrada que mais agrega valor ao agronegócio brasileiro. Abundância de água, solo fértil, gado criado em contato com ambientes naturais que o torna mais saudável, peixes de origem natural em rios não poluídos, grãos com alta qualidade por que se desenvolvem em um regime de chuvas que dão condições ao crescimento de boas safras a um custo menor, sem irrigação artificial. Produtos da extração florestal sustentável com alto valor de mercado. A lista é longa de qualidades do agronegócio brasileiro que respeita a floresta, as nascentes, o ciclo de águas que são nossos maiores patrimônios.

Mas querem matar a galinha dos ovos de ouro. Outros países já passaram por este processo, entre eles os EUA. Que tem vastas regiões desertificadas pela exploração predatória de florestas e pela agricultura extensiva que não preservou árvores.  Só lembrando um pequeno detalhe na história recente: Belo Monte. Uma hidroelétrica que virou uma gigantesca cicatriz na região mais inexplorada da bacia do rio Xingu, foi uma verdadeira tragédia ambiental, política, social, antropológica e fonte de muita corrupção.

Agora o governo que se elegeu com amplo apoio de ruralistas está irresponsavelmente pondo em risco todo o mercado do agronegócio, liberando agrotóxicos superados e proibidos em outros países, fazendo vistas grossas a bandidos que desmatam e exportam ilegalmente madeira protegida por lei. E o agronegócio que cumpre a lei fica se sentindo feito de idiota. Afinal esse não era o governo que iria combater os bandidos? Fazer cumprir a lei?

O Brasil é o campeão da insegurança jurídica, a cada 4 ou 8 anos mudam as regras dos negócios, desorganizando-se segmentos inteiros da economia. A fragilização das marcas e negócios que vendem no mundo inteiro o Brasil “verde” interessa a quem? Enquanto essa medida provisória tramita nos gélidos corredores das comissões do Congresso Nacional a “inteligência” dos nossos universitários, ainda sob o efeito anestésico das cartilhas de ultra esquerda, estão preocupados com o pai do presidente da OAB, com a justiça “histórica”. Que belo bode colocado na sala. Bolsonaro é um gênio da mídia social. Enquanto todos olham para o bode, matam a galinha dos ovos de ouro.

Só para lembrar estamos colhendo uma super safra histórica de milho. Fruto de um bom regime de chuvas, enquanto nos EUA, maior produtor mundial de milho houve seca e quebra histórica.

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Cabeças que servem para o quê? #degolados #altamira

Cresci ouvindo que o Brasil não tinha terremoto, furacão, nem guerra, que aqui ninguém passava fome. Um paraíso tropical colonizado por gente de bem com a vida, que gosta de praia, carnaval e joga futebol com alegria. O Brasil de 2019 está protagonizando um contexto de violência com cenas dignas do Estado Islâmico, de medievalismo brutal.

Dúzias de cabeças decepadas, guerrilhas urbanas com armamento pesado, máfias organizadas através de partidos políticos e infiltradas em governos, parlamentos, empresas da infra-estrutura de energia, de comunicação e da construção civil. Militares e policiais envolvidos com tráfico de drogas e armas que abastecem mercados mundiais. Batalhas em que a letalidade para um policial militar brasileiro é mais alta que a letalidade para um soldado norte americano no Oriente Médio.

Isto não foi construído em pouco mais de duzentos dias de governo. Trata-se de um processo de estupidificação que decorre de anos de práticas políticas predatórias, de atividades parlamentares míopes, de dilapidação da peça mais importante para que um país se mantenha a frente do desenvolvimento econômico: a educação.

As elites brasileiras têm uma alta parcela de responsabilidade sobre o contexto a beira do inadministrável em que chegamos. Não existe um projeto de nação que se sustente sem o apoio das elites, e no Brasil estas elites se tornaram idiotas, de rasa filosofia, pouca capacidade de planejamento e fraca intelectualidade. A falência da inteligência brasileira encontrou em alguns ideólogos seu ápice de bufonismo e falta de fundamentação. Tanto na direita, quanto na esquerda. Estamos reféns desse espetáculo ridículo que não nos leva a lugar algum. As cabeças rolando são o símbolo máximo de nossa acefalia, da extirpação da parte pensante de nossos corpos e sociedade. Da incapacidade de ser mais eficiente do que o crime organizado, ou ainda pior, de conviver com ele.

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No faroeste digital, xerife também leva tiro

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Publicado no CORREIO DO POVO desta quinta-feira, dia 1º de agosto de 2019 na página 3.

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Eu conto como o pai dele morreu #mimimi

Aliás como os pais têm morrido no Brasil?  Esperando na fila de atendimento médico, por bala perdida, sem cirurgia, atropelados, assaltados, por falta de penicilina. Por abandono familiar. Esses não importam, né? 
Laranjas, factóides, bobagens, tresvairios, pá-pá-pá pô, dedo no cu. E assim segue o non-sense que faz fake-pautas para o fake jornalismo, dos fake leitores de 140 caracteres. Qualificar a política nacional passa por qualificar o debate político, os debatedores, as regras do debate, os times dentro dos gabinetes que eleboram os termos dos debates. Mas isto é um possibilidade tão real quando a ida dos astronautas para marte este ano. Não temos a mínima chance de discutir política de sustentabilidade ambiental, descarte de resíduos sólidos, projetos de energia limpa, smart-grid, plano de saneamento básico, desengensamento dos processos educacionais, diversificação de modais de transporte, home-education, acesso a armas para civis que queiram registrar seus armamentos, desenvolvimento tecnológico, marcas e patentes, e, principalmente, o milagre econômico da reforma da previdência. Nada disso é relevante. Importante é o corte de cabelo do líder em pleno papo de barbeiro esculhambando desafetos políticos mortos de 50 anos no passado, isso sim merece atenção da mídia. Portanto quem é responsável pela esculhambação institucional do Brasil que faz meia dúzia ficarem muito muito ricos? Nós. Eu, tu e o rabo do tatu. Esquerda cruza e direita faz gol de placa. E enquanto não passarmos a focar no que tem que ser focado, enquanto a agenda for feita pelo twitter de algum fake assessor estaremos reféns do anti debate, da cortina de fumaça, da bobagem pela bobagem. A espetaculização da política é tão antiga quanto a própria política de milhares de anos passados. Separar o espetáculo do que importa continua sendo o grande desafio do espetáculo-cidadania fundada sobre o pão e circo. Peço por favor, mais foco nos vivos e nos fatos e menos mimimi.

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O quarto poder no paraíso dos hackers

Chantagistas chantageados por chantageadores profissionais que chantageavam para os chantagistas. Parece a resolução de um crime pelo Scooby-Doo e Salsicha. Pasmem, é onde o “puderrrr” concentrado nos gênios de Brasília nos levou. Os contratantes de hackers os catapultaram a condição de quarto poder e agora não sabem o que fazer.

O Brasil faz tempo dá mostras de falta de gestão ou planejamento em telecomunicações. O país ignora acordos de segurança na internet, o sigilo de usuários, os direitos autorais na web e confunde, na internet e fora dela, a diferença entre público e privado. Aqui Zuck jamais seria interrogado pelo Senado ou um Senador teria que explicar como usa seu e-mail para compartilhar informações de Governo.

Dezenas de milhões de brasileiros têm seus dados bancários invadidos. Ações na justiça movidas por você ou das quais você é réu, seu CPF, endereço e telefone, tudo está exposto na internet brasileira. Uma conversa telefônica entre a presidente e o ex-presidente dois dias depois de acontecer estava no noticiário nacional. Centenas de milhares de arapongas virtuais oferecem serviços nas midias sociais. Descubra se o seu namorado lhe trai. Experimenta fazer essa busca. No Brasil ainda é possível roubar um celular e revendê-lo sem ser rastreado pela polícia.

Sem legislação específica coerente ou aparato policial qualificado o Brasil, que já é o maior corredor de exportação de cocaína no mundo, também é o mais próspero paraíso de hackers do mundo. Arapongas a vontade, chefes do crime comandando as capitais de dentro das prisões por WhatsApp, impunidade quase total para os donos de bunkers e até um sistema eleitoral em que qualquer menino descobre em quem você votou. Centenas de milhões de ligações para celulares feitas por empresas para quem os usuários não deram seus números. Claro que um dia esse caldo cultural criminoso iria ferver. Mas quem se importaria com isso? Quando os bancos passaram a compartilhar entre si dados dos clientes, nada houve. Quando centenas de milhares de aposentados tiveram empréstimos consignados fechados por telefone, pouco aconteceu. Quando a Receita Federal passou a poder cobrar Imposto de Renda a partir da movimentação bancária, que um dia foi sigilosa por motivos óbvios, nenhum ministro se opôs.

Agora os ministros têm dificuldade com o novo universo das comunicações e do compartilhamento de informações outrora privadíssimas. No faroeste caboclo digital, xerife também leva tiro. Ou nas palavras do Guru do Meyer: “papagaio que come pimenta sabe o cu que tem”.

Só para lembrar, o Brasil segue há anos com a tarifa de telefonia móvel mais cara do mundo, 50% dos fios nos postes não servem para coisa alguma e uma parcela minúscula dos estudantes universitários sabe explicar como a luz se transforma em foto no celular que seguram na mão. 

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Ironia do destino porto-alegrense

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Esta foto fiz numa noite fria, em que passeava quase sozinho onde hoje não posso mais ir, muito menos fotografar. A foto é a triste testemunha de uma cidade mutilada ao longo de décadas por gestores com ideias confusas, que não estudaram ou conheciam as raízes culturais, econômicas e sociais deste Porto, cada dia menos Alegre e menos portuário.

Tiraram os bondes, ergueram o muro, fecharam o porto, anularam bairros inteiros, não atrairam novos segmentos econômicos. Amontoaram obras abandonadas , inacabadas, mal acabadas, descabidas. Esqueletos, escadas rolantes que levam ninguém a lugar algum, saídas fechadas, acessos inacessíveis. Ninguém mais se surpreende, para sair do centro da cidade de milhões de pessoas, tem que ser um veículo por vez.

Proibiram cavalos de puxarem carroças para substitui-los por pessoas. Acirraram a guerra do lixo acumulado por estes escravos pós modernos que roubam para receptadores ricos os resíduos que a prefeitura é paga para recolher, mas não sabe fazê-lo. Só sabe cobrar, cada vez mais. Obrigando vários a vender seus imóveis por não poderem arcar com o imposto sobre a propriedade. Evacuação imposta.

Sem projeto para ocupar esta gigantesca estrutura de armazéns, silos e prédios portuários que começam na antiga fábrica do Renner e vão até às portas da Zona Sul. Estas mesmas autoridades querem permitir que se derrube a mata de áreas ainda “não ocupadas” lá no extremo sul. Para erguer mais prédios que terão o mesmo destino, o abandono.

A cidade vai sendo lixificada a cada dia. Muros que separam ruas esburacadas e alagadas de terrenos baldios, ginásios em ruínas e até um lindo estádio transformado em cracolândia.

Nada supera a estupidez desses sujeitinhos? Vamos embora, deixar que matem a cidade sufocada pela incompetência e falta de qualidade intelectual? Que ironia, justo esta que foi a mais vanguardista das capitais. A de arquitetura moderníssima e grandes avenidas, de muitos chafarizes e cafés agitados por ideias novas. Ironia do destino.

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